Sábado, 10 de Janeiro de 2009

"Ciência não é comunicação, mas não existe sem ela. À semelhança dos mais rudimentares saberes dos nossos primitivos antepassados, também a ciência é inseparável da comunicação. Entendida como um conjunto de conhecimentos acerca de parcelas maiores ou menores do todo universal, obtidos através da observação, da experimentação e/ou da elaboração mental, a ciência é um edifício do colectivo, cujos alicerces se perdem nos confins do tempo da humanidade. Edificada pedra sobre pedra, o seu fio condutor sempre foi e será a comunicação. Sem comunicação, o conhecimento científico não avança. Morre com quem o cria. Comunicar ou comungar, do latim, communicare, significa partilhar com outrem. Comunica-se através da linguagem escrita, falada ou gestual. Comunicam entre si, e até connosco, muitos dos animais que conhecemos. A comunicação entre os humanos utiliza sobretudo a voz e a escrita, muitas vezes apoiadas pelo gesto e pela expressão fisionómica e corporal, como acontece, por exemplo, com o professor na sala de aula. Comunicam entre pares, ao mais alto patamar de erudição, os sábios nas academias e os investigadores nos congressos e outras reuniões científicas. Comunicam entre si professores e alunos. Comunicam, através dos livros ou dos media, e aos mais diversos níveis, os poucos divulgadores que se dispõem a fazê-lo.

Quase tudo o que nos rodeia e de que constantemente nos servimos, ou com o qual nos articulamos diariamente, resultou das conquistas da ciência e da tecnologia. Os alimentos, os medicamentos, os transportes e comunicações, os equipamentos mais variados da indústria, da saúde, da cultura ou do lazer, radicam, em grande parte, nestas conquistas do génio humano. O conhecimento científico e as tecnologias com ele relacionadas são alguns dos pilares sobre os quais assentam as sociedades humanas, o progresso social e o bem-estar da humanidade.

O paralelismo entre a produção científica e o avanço das técnicas de comunicação é, sobretudo nos dias que correm, uma evidência espectacular. Do texto manuscrito enviado por mar e à vela, ou por terra, na bolsa de um estafeta a cavalo, ao correio expresso, ou dos já antiquados telex e fax, ao actualíssimo e-mail e à inesgotável Internet, a generalização e o aperfeiçoamento constante e progressivo dos meios de comunicação de pessoas e ideias fez crescer exponencialmente o hoje imenso e inabarcável edifício da ciência. Esperemos que o instantâneo da comunicação, que caracteriza os nossos dias, possa acautelar muitos dos riscos que o avanço da ciência também acarreta. Lembremo-nos da pólvora, da dinamite, do armamento nuclear, das guerras química e biológica, e não esqueçamos a clonagem, os transgénicos, a nanotecnologia e tudo o mais que vem aí."

Galopim de Carvalho - Geólogo.

Hoje no DN.



publicado por notasdeabrantes às 18:54 | link do post | comentar | favorito

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